Marcelo Bielsa, técnico da Seleção Uruguaia, expressou forte desaprovação em relação à nova regra da Fifa para a Copa do Mundo de 2026, que acontecerá no Canadá, Estados Unidos e México. A alteração, que divide as partidas em quatro tempos com pausas obrigatórias para hidratação, foi duramente criticada pelo treinador argentino. Em entrevista ao jornal El País, Bielsa declarou que a mudança “não ajuda em nada e tira muito do futebol”, reacendendo o debate sobre até que ponto a entidade máxima do esporte está disposta a modificar sua essência em nome de supostos benefícios aos atletas.
Anunciada oficialmente em 2024, a nova norma prevê que os árbitros interrompam o cronômetro em dois momentos de cada tempo — usualmente aos 15 e 30 minutos — para que os jogadores possam se hidratar. Na prática, o tempo de jogo efetivo com a bola rolando diminui de 90 para aproximadamente 88 minutos. Contudo, a principal preocupação reside na fragmentação do ritmo e da intensidade que caracterizam o futebol de alto nível. Bielsa argumenta que o jogo possui seus próprios ciclos de pausa naturais, como faltas, laterais e substituições, e que a introdução de paradas artificiais interfere diretamente na dinâmica construída pelas equipes em campo.
A polêmica da pausa para hidratação
A Fifa justifica a medida com base em estudos que apontam riscos de desidratação e hipertermia em partidas disputadas sob calor extremo. Sedes da Copa de 2026, como Dallas e Houston, podem registrar temperaturas acima de 38°C, o que valida a preocupação com a saúde dos atletas. No entanto, a obrigatoriedade da pausa em todos os jogos, independentemente das condições climáticas, gerou resistência. Em torneios anteriores, tais pausas eram facultativas e decididas pelo árbitro em situações extremas.
Para Bielsa, a regra é um paliativo que ignora a complexidade do esporte. Ele sugere que, caso a preocupação seja com o calor, a solução deveria ser o ajuste dos horários das partidas ou o investimento em infraestrutura de refrigeração nos estádios, em vez de “quebrar a estrutura do jogo”. A crítica do treinador, conhecido por sua abordagem tática minuciosa, encontrou ressonância entre outros técnicos que já haviam manifestado reservas. O cerne da questão é que o futebol, por sua natureza de fluxo contínuo, difere de esportes como o basquete ou o futebol americano, que são naturalmente adaptados a paradas programadas.
Impacto no futebol brasileiro e sul-americano
No Brasil, o torcedor, acostumado com a intensidade do Brasileirão e da Copa do Brasil, pode ver a novidade como uma interferência desnecessária. Seleções como a brasileira, sob o comando de Dorival Júnior, precisarão se adaptar a um jogo mais fragmentado, o que potencialmente beneficiará equipes defensivamente mais sólidas e prejudicará aquelas que apostam na transição rápida. A obrigatoriedade da pausa também retira dos técnicos a autonomia de gerenciar a hidratação de forma intuitiva durante momentos de interrupção natural.
A preparação física também é um ponto sensível. Clubes brasileiros, que já lidam com calendários exaustivos, viagens e jogos em horários extremos, terão que reavaliar a periodização de seus atletas. Embora a pausa possa reduzir o desgaste, ela pode comprometer o pico de rendimento em momentos cruciais. Para o futebol sul-americano, onde a intensidade é um diferencial competitivo, a mudança pode levar a um nivelamento por baixo, favorecendo seleções europeias habituadas a um ritmo mais cadenciado.
A luta pela identidade do futebol
A crítica de Bielsa não é um caso isolado, e o debate sobre a descaracterização do futebol tende a se intensificar. A Fifa, sob pressão de patrocinadores e emissoras, parece disposta a testar novas fórmulas para adaptar o esporte a diferentes condições. No entanto, o risco de perder a identidade do jogo é real. Se a pausa para hidratação se consolidar, outros tipos de interrupções, como paradas para publicidade, podem surgir, algo temido por muitos aficionados.
Em jogo está a essência do futebol como um esporte de fluxo contínuo. Enquanto a Fifa busca ajustes que priorizam a segurança e o espetáculo televisivo, vozes como a de Bielsa lembram a importância do equilíbrio intrínseco do esporte. A questão que permanece é até onde a entidade máxima do futebol está disposta a ir para agradar a diversos interesses, sem comprometer a alma do esporte mais popular do planeta.