quinta-feira, 17 de setembro
Ao vivo
Estádio de futebol iluminado à noite
← Voltar para notícias Futebol

Moradores de rua em Atlanta se sentem alvos de ‘limpeza’ para a Copa do Mundo

Atlanta vive uma realidade amarga às vésperas da Copa do Mundo de 2026. A população em situação de rua se vê cada vez mais pressionada por operações de remoção de acampamentos informais, intensificadas em nome do “embelezamento” da cidade para receber o evento. Relatos colhidos pelo jornal britânico The Guardian revelam que centenas de pessoas foram deslocadas, muitas em operações que ocorreram durante a madrugada, sem aviso prévio e com seus pertences descartados como lixo.

Os locais para onde essas pessoas são enviadas foram descritos por um morador como “depósitos de policiais”, semelhantes a campos improvisados da FEMA, com a presença constante de guardas. Outro homem, que preferiu não se identificar, relatou ter sido “largado no meio da noite” em um galpão, afirmando que a intenção é limpar a cidade para os turistas. Essa prática expõe a face mais cruel do “embelezamento urbano” que acompanha grandes eventos esportivos.

O padrão de remoção de populações vulneráveis em prol de megaeventos não é novidade. Em 2014, o Brasil também viu moradores serem desalojados de comunidades no Rio de Janeiro para dar lugar a obras relacionadas à Copa. Agora, Atlanta repete esse roteiro, com a agravante de que a maioria dos afetados são negros e de baixa renda, sem perspectivas concretas de reassentamento digno. Enquanto isso, a FIFA mantém um discurso institucional de legado social, que na prática tem se traduzido em exclusão.

A estratégia de exclusão da FIFA em Atlanta

A operação de “limpeza” em Atlanta segue um padrão conhecido, com a prefeitura local, sob orientação do comitê organizador, declarando áreas próximas ao Mercedes-Benz Stadium como “zonas de segurança” e autorizando a remoção imediata de acampamentos. Segundo o The Guardian, mais de 400 pessoas foram deslocadas em apenas duas semanas. Os abrigos oferecidos são temporários e não garantem permanência após o torneio.

A brutalidade dos métodos é alarmante. Relatos indicam que os despejos ocorrem sem aviso prévio e que pertences pessoais são tratados como lixo. A frase “Não somos apenas cifras, somos pessoas”, dita por um dos entrevistados, resume o sentimento de desumanização embutido na política de “embelezamento” para a Copa. Do ponto de vista urbanístico, essas remoções forçadas podem aumentar a vulnerabilidade e a criminalidade, além de gerar custos adicionais para o sistema de saúde, algo que Atlanta, já enfrentando uma crise habitacional, parece ignorar em favor de sua imagem internacional.

O custo humano da Copa para o torcedor

Para o torcedor que acompanha a Copa do Mundo, seja pela TV ou presencialmente, a imagem de ruas limpas e estádios impecáveis pode parecer a norma. No entanto, o custo humano desse espetáculo é tangível e se manifesta na exclusão social. A situação em Atlanta remete ao que ocorreu no Brasil em 2014, quando comunidades inteiras foram removidas para obras da Copa, e muitas famílias jamais receberam moradia definitiva.

O torcedor que viajar para os Estados Unidos durante o torneio deve estar ciente de que as mesmas forças de segurança que removem moradores de rua também atuam com rigor contra ambulantes e pequenos comerciantes informais. A experiência de assistir aos jogos em Atlanta pode trazer um choque de realidade: a cidade que exibe o futebol globalizado também esconde, em suas margens, uma profunda crise social.

Este episódio levanta uma questão ética para a FIFA. A entidade, que se promove como promotora da inclusão, permanece em silêncio diante de violações de direitos básicos em nome do espetáculo. O torcedor brasileiro, que já vivenciou situações semelhantes, tem o direito de exigir transparência e responsabilidade social dos organizadores.

O legado indesejado da Copa do Mundo de 2026

O que acontece em Atlanta não é um caso isolado, mas um sintoma do modelo de megaeventos esportivos. Enquanto a FIFA e os governos anfitriões celebram recordes de público e receita, as populações mais vulneráveis arcam com as consequências. A expectativa é que, após o torneio, os abrigos temporários sejam desativados, empurrando os desalojados de volta para as ruas ou para periferias ainda mais distantes.

Para o Brasil, que sediará a Copa do Mundo Feminina em 2027, o caso de Atlanta serve como um alerta. A pressão por “limpeza” urbana tende a se repetir, e o país precisa aprender com os erros do passado e com os equívocos atuais. Organizações de direitos humanos já pressionam a FIFA para incluir cláusulas de proteção social nos contratos com as cidades-sede.

O futebol, que deveria ser uma ferramenta de união, revela mais uma vez suas contradições. Enquanto a bola rola no gramado, centenas de pessoas lutam para não serem apagadas da existência. A questão persistente é: até quando o espetáculo justificará a exclusão?

Rolar para cima