quarta-feira, 16 de setembro
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Tim Vickery: O que a Copa do Mundo diz ao Brasil e à América do Sul

Pela primeira vez na história, uma seleção sul-americana não levantou uma Copa do Mundo disputada em solo norte-americano — e o alerta, segundo o colunista Tim Vickery, é grave para a Conmebol. Na final do último domingo, a Argentina de Lionel Messi foi amplamente dominada pela França de Kylian Mbappé e só não saiu com a derrota no tempo regulamentar por detalhes. Para Vickery, o torneio deixou recados incômodos para o Brasil de Tite e para os vizinhos do continente: a distância técnica e tática para as potências europeias aumentou, e a tendência é de vacas magras no pós-Messi.

A análise do jornalista inglês, publicada no portal Trivela, não poupa críticas à falta de identidade do futebol sul-americano. Enquanto a França de Didier Deschamps mostrou um modelo de jogo coeso, com transições rápidas e pressão alta, o Brasil de Neymar e a Argentina de Scaloni oscilaram entre momentos de brilho individual e apagões coletivos. Vickery aponta que a Copa expôs uma verdade incômoda: a América do Sul não produz mais um ciclo de renovação consistente, e os clubes da região perderam capacidade de formar jogadores com leitura tática moderna.

O dado mais preocupante, segundo o colunista, é que a Argentina campeã mundial foi a exceção que confirma a regra. Com Messi em campo, a Albiceleste conseguiu mascarar deficiências estruturais. Sem ele, o cenário é de incerteza. Para o Brasil, a eliminação nas quartas de final contra a Croácia escancarou a dependência de Neymar e a falta de um plano B. Vickery sugere que a CBF precisa repensar a formação de treinadores e a integração entre base e profissional — ou o abismo para a Europa só vai aumentar.

O domínio europeu e a crise de identidade sul-americana

A final entre França e Argentina foi um microcosmo do que Vickery descreve como a crise de identidade do futebol sul-americano. Enquanto a França de Mbappé e Antoine Griezmann executou um plano tático milimétrico, com variações de pressing e blocos altos, a Argentina de Ángel Di María e Rodrigo De Paul dependeu de lampejos individuais para equilibrar o jogo. O colunista argumenta que a Conmebol perdeu o bonde da evolução tática que a UEFA abraçou na última década — e a Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, pode ser ainda mais dura.

Para o Brasil, o recado é direto: a geração de Vinícius Júnior, Rodrygo e Raphinha precisa de mais do que talento individual. Vickery lembra que a Alemanha de 2014 e a França de 2018 combinaram base forte, treinadores com filosofia clara e ligas nacionais competitivas. No Brasil, o calendário inchado, a má gestão dos clubes e a falta de continuidade nos projetos técnicos — como a saída de Tite após a Copa — criam um ambiente hostil à evolução. O colunista cita o trabalho de Fernando Diniz no Fluminense como exceção, mas alerta que um caso isolado não resolve o problema sistêmico.

Outro ponto levantado por Vickery é a fragilidade das seleções sul-americanas fora de casa. Uruguai de Diego Alonso, Colômbia de Néstor Lorenzo e Equador de Gustavo Alfaro tiveram atuações irregulares, sem conseguir impor seu jogo contra adversários europeus. A falta de jogadores atuando nas principais ligas do mundo — e, quando atuam, a dificuldade de adaptação tática — é um sintoma de que a formação nos países da Conmebol está defasada. Vickery sugere que a solução passa por uma reforma nos campeonatos nacionais e por investimento em treinadores com visão moderna.

O que muda para o Brasil e os vizinhos no pós-Copa

Para o torcedor brasileiro, o impacto prático é imediato: a Copa do Mundo de 2026 não será disputada em casa, e a pressão sobre a CBF para apresentar um projeto de longo prazo aumenta. Vickery aponta que a Argentina, mesmo campeã, terá de enfrentar a transição sem Messi — e o Brasil pode se beneficiar se começar a planejar agora. A base da Seleção Brasileira, com nomes como Endrick e Vitor Roque, precisa ser integrada a um sistema tático claro, algo que não aconteceu sob o comando de Tite nos últimos ciclos.

Na prática, os clubes brasileiros também sentirão o reflexo. A tendência é que as principais ligas europeias intensifiquem a captação de jovens talentos sul-americanos, mas com critérios mais rigorosos de adaptação tática. Times como Palmeiras, Flamengo e Fluminense, que investem em centros de treinamento e metodologias modernas, podem se tornar referência — mas a maioria dos clubes ainda opera no curto prazo, priorizando resultados imediatos em detrimento da formação. Vickery alerta que, sem uma mudança de mentalidade, o Brasil corre o risco de se tornar um exportador de matéria-prima, não de jogadores prontos para o alto nível.

Para as seleções vizinhas, o cenário é ainda mais desafiador. Uruguai e Colômbia dependem de gerações envelhecidas, enquanto Chile e Peru vivem um apagão de talentos. A Argentina, mesmo com o título, terá de reconstruir o elenco sem Messi, Di María e possivelmente Nicolás Otamendi. Vickery sugere que a Conmebol precisa de um choque de gestão, com calendários mais enxutos e intercâmbio de metodologias com federações europeias. Caso contrário, a Copa de 2026 pode repetir o roteiro de 2022: domínio europeu e sul-americanos lutando para chegar às semifinais.

A corrida pela renovação está apenas começando

Tim Vickery encerra sua análise com uma perspectiva que mistura realismo e esperança. Ele acredita que o futebol sul-americano tem matéria-prima para reagir, mas o tempo é curto. A Copa do Mundo de 2026, com três sedes na América do Norte, será um teste de fogo: as seleções da Conmebol precisarão mostrar evolução tática e consistência para competir de igual para igual com França, Inglaterra e Alemanha. O Brasil, em particular, tem a obrigação de liderar esse movimento, dado seu peso histórico e econômico no continente.

O colunista aposta que a chave está na formação de treinadores. Enquanto a Europa produz técnicos como Pep Guardiola, Jürgen Klopp e Didier Deschamps, a América do Sul ainda depende de figuras carismáticas, mas com pouca atualização metodológica. Vickery cita o trabalho de Marcelo Gallardo no River Plate como exemplo de que é possível aliar tradição e inovação, mas ressalta que casos isolados não mudam o quadro geral. A Conmebol, segundo ele, precisa de um plano continental de desenvolvimento técnico — ou o futebol sul-americano continuará sendo coadjuvante nas Copas do Mundo.

Para o leitor brasileiro, a mensagem de Vickery é clara: o futebol não vive apenas de talento. A Copa do Mundo de 2022 mostrou que organização tática, preparação física e planejamento de longo prazo são tão importantes quanto ter um Neymar ou um Messi em campo. O Brasil tem condições de reagir, mas precisa começar agora. A próxima Copa está a quatro anos de distância, e o relógio não para.

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