A sede da FIFA, em Zurique, virou palco de um racha público raro. O diretor de operações da entidade, Kevin Lamour, soltou o verbo contra o presidente Gianni Infantino e classificou a proposta de abrir o braço comercial da FIFA para investidores privados como um “projeto de uma pessoa só”. A declaração, divulgada nesta sexta-feira, expõe um mal-estar interno que a Associated Press apurou nos bastidores: funcionários da entidade teriam sido enganados durante o processo de elaboração do plano, que prevê a criação de uma empresa para gerenciar os negócios da entidade.
Lamour não poupou críticas à falta de transparência. Segundo o dirigente, a iniciativa de Infantino foi desenhada sem diálogo com as áreas operacionais, o que gerou um clima de desconfiança entre os departamentos. O caso ganha contornos ainda mais delicados porque mexe diretamente com o caixa da FIFA, que viu na última década um aumento exponencial de receitas com patrocínios e direitos de transmissão, especialmente após a Copa do Mundo de 2022, no Catar.
O que está em jogo não é apenas uma disputa de poder, mas o modelo de governança que a FIFA pretende adotar para os próximos ciclos, incluindo o Mundial de 2026, que será disputado nos Estados Unidos, no Canadá e no México. A fala de Kevin Lamour, um dos nomes mais próximos do cotidiano da entidade, indica que a resistência ao plano de Gianni Infantino não está apenas nos comitês, mas dentro da própria estrutura executiva.
Por que o plano de Infantino para a FIFA gera desconfiança interna
A proposta de Gianni Infantino é, na essência, uma manobra de mercado. Ao criar uma empresa separada para gerir ativos comerciais, a FIFA atrairia sócios investidores com promessa de retorno financeiro em troca de agilidade na exploração de novas receitas. Para Kevin Lamour, no entanto, o projeto nasce com um vício de origem: a ausência de um debate colegiado. Em sua avaliação, a decisão foi tomada de forma centralizada, ignorando alertas de áreas como finanças e compliance.
O diretor de operações também apontou que a comunicação interna foi falha. Funcionários teriam sido informados de que o projeto era um estudo preliminar, quando, na prática, já havia negociações avançadas com potenciais investidores. A crítica de Lamour, nesse sentido, não é apenas sobre o mérito da ideia, mas sobre o método. Em um ambiente onde a FIFA tenta se blindar de escândalos de corrupção do passado, a falta de transparência é um tiro no pé.
Do ponto de vista tático, a movimentação de Infantino pode ser lida como uma tentativa de blindar a entidade contra oscilações de mercado. Mas, ao abrir o capital para terceiros, a FIFA corre o risco de perder o controle sobre decisões estratégicas de longo prazo, como a escolha de sedes de Copas e a distribuição de recursos para federações menores. É um dilema clássico entre eficiência de mercado e governança esportiva.
O que muda para o futebol brasileiro com a briga na cúpula da FIFA
Para o futebol brasileiro, a disputa interna na FIFA não é uma novela distante. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), presidida por Ednaldo Rodrigues, depende diretamente dos repasses da entidade máxima para financiar competições de base e projetos de desenvolvimento. Se o plano de Infantino avançar, a tendência é que o fluxo de recursos seja reavaliado, com critérios mais rígidos de retorno sobre investimento.
Clubes como Flamengo e Palmeiras, que hoje negociam diretamente com parceiros comerciais globais, também devem observar o desfecho com atenção. Uma FIFA mais empresarial pode significar contratos mais agressivos de patrocínio e direitos de transmissão, mas também pode elevar a barreira de entrada para federações menores, que dependem do apoio institucional da entidade para sobreviver.
O posicionamento de Kevin Lamour, nesse cenário, funciona como um alerta para os bastidores. Se a resistência interna for forte o suficiente, o projeto pode ser engavetado ou reformulado, o que daria um novo fôlego para a gestão tradicional da FIFA. Por outro lado, se Infantino conseguir impor sua visão, o futebol mundial entrará em uma nova era de profissionalização extrema, com impactos diretos no calendário e na distribuição de receitas.
A corrida pela governança da FIFA está apenas começando
O desfecho dessa queda de braço entre Kevin Lamour e Gianni Infantino deve ser observado nos próximos meses, especialmente com a aproximação do Congresso da FIFA, marcado para o início de 2027. A pressão sobre o presidente deve aumentar, e a resposta de Infantino será decisiva para medir sua força política dentro da entidade. Se ele optar por recuar, sairá fragilizado; se insistir, terá que lidar com um motim interno que pode contaminar outras áreas.
Para os torcedores e dirigentes brasileiros, o recado é claro: a FIFA está em um ponto de inflexão. A gestão de Infantino, marcada por centralização e resultados financeiros robustos, agora enfrenta seu maior teste de legitimidade. A forma como essa crise for administrada definirá não apenas o futuro da entidade, mas também o equilíbrio de forças no futebol global, onde a CBF e os clubes brasileiros ainda ocupam um papel de destaque, mas precisam se adaptar a um ambiente cada vez mais competitivo e orientado por métricas de mercado.