Gianni Infantino enfrenta a mais severa crise em sua gestão na Fifa. Uma proposta para vender 30% dos direitos comerciais da Copa do Mundo a investidores privados uniu as seis confederações continentais contra o atual presidente. Conmebol e Uefa, lideradas por Alejandro Domínguez e Aleksander Ceferin, respectivamente, já manifestaram oposição ao plano, que pode ser votado ainda neste semestre.
O projeto, apresentado em reunião sigilosa do Conselho da Fifa, prevê a criação de uma nova entidade para gerir a exploração comercial das próximas duas edições do Mundial, incluindo a de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. A iniciativa gerou surpresa, inclusive entre aliados históricos de Infantino, como a Concacaf, presidida por Victor Montagliani, conforme noticiado pelo jornal The New York Times.
Essa movimentação questiona o modelo de governança estabelecido por Infantino desde 2016, focado no aumento de receitas e na distribuição de recursos às federações. Agora, o dirigente se depara com a mais significativa ameaça ao seu mandato, que se estende até 2027.
A razão da resistência das confederações à venda parcial da Copa
A discordância central reside na estratégia da Fifa de antecipar receitas futuras para financiar um fundo de investimentos, em contrapartida ao temor das confederações de perderem autonomia sobre o principal ativo do futebol mundial. A Uefa, em particular, expressou publicamente preocupação com a potencial ingerência de fundos soberanos e grupos privados no esporte, um cenário combatido ativamente por Aleksander Ceferin na Europa.
Na prática, a venda de 30% dos direitos comerciais do Mundial implicaria a formação de uma entidade independente com poder de decisão sobre patrocínios, direitos de transmissão e até mesmo o calendário das competições. Federações de menor porte, especialmente na África e na Ásia, receiam que investidores priorizem mercados de alta rentabilidade, negligenciando o desenvolvimento do futebol em regiões emergentes.
A iniciativa de Infantino também é interpretada como uma resposta à crescente demanda por maior transparência e à necessidade de captar fundos para o novo formato do Mundial de Clubes, com estreia prevista para 2025. Contudo, a abordagem de buscar capital externo sem consulta prévia às confederações foi considerada um grave equívoco político, segundo apurou o Globo Esporte.
Implicações para o futebol brasileiro e a Fifa
A crise na Fifa pode ter repercussões diretas para o futebol brasileiro. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sob a liderança de Ednaldo Rodrigues, é uma das entidades que mais dependem dos repasses da entidade máxima do futebol. Caso o plano de Infantino seja aprovado, uma parte desses recursos poderia ser destinada aos investidores, limitando a capacidade de investimento das confederações nacionais em projetos de base e infraestrutura.
Adicionalmente, a indefinição na cúpula da Fifa pode postergar decisões cruciais, como a escolha da sede da Copa do Mundo Feminina de 2027 e a definição do formato das eliminatórias para o Mundial de 2026. O Brasil, já classificado para a próxima edição masculina, acompanha atentamente os desdobramentos, especialmente considerando a importância de um calendário estável para o planejamento da Seleção Brasileira sob o comando de Carlo Ancelotti.
Outro aspecto relevante é o impacto na percepção do futebol como modalidade de negócio. A venda de direitos comerciais a investidores privados pode abrir um precedente para que outras competições importantes, como a Copa América e a Eurocopa, sigam um caminho semelhante. Isso colocaria em risco o atual modelo de governança, que se baseia na autonomia das federações nacionais.
A corrida contra o tempo para Infantino
O futuro de Gianni Infantino na presidência da Fifa agora depende de sua habilidade em reverter a oposição consolidada pelas confederações. Conmebol e Uefa já indicaram que podem recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) caso a proposta seja aprovada no Conselho da Fifa, agendado para dezembro.
Nos bastidores, nomes como o do ex-presidente da Federação Francesa, Noël Le Graët, e do atual presidente da Federação Alemã, Bernd Neuendorf, são especulados como possíveis sucessores. No entanto, nenhum deles detém, até o momento, o apoio explícito das seis confederações, o que adiciona incerteza ao cenário.
Infantino, reeleito sem oposição em 2023, aposta no apoio de federações menores, que se beneficiaram de seus programas de investimento. A disputa promete ser uma intensa batalha de bastidores nos próximos meses, com o cenário do futebol mundial em constante observação.