Luís Figo, figura proeminente do futebol mundial e ídolo de clubes como Real Madrid e Barcelona, dirigiu críticas contundentes a Gianni Infantino, presidente da FIFA. O ex-meia classificou a tentativa fracassada de Infantino de vender cotas da Copa do Mundo a investidores privados como “o comportamento mais baixo, enganoso e covardemente interesseiro que já testemunhei”. A declaração, divulgada pelo The Guardian, intensifica a crise que assola a entidade máxima do futebol.
Gianni Infantino, de 56 anos, viu-se forçado a recuar na proposta após forte reação liderada pela Uefa. Contudo, a pressão sobre o dirigente não arrefeceu; ao contrário, a convocação de uma reunião de emergência com funcionários da FIFA nesta quarta-feira sinaliza um ambiente de profunda tensão em Zurique. Figo, que já concorreu à presidência da FIFA, agora solicita publicamente a renúncia de Infantino com o intuito de “salvar o futebol”.
A FIFA enfrenta um momento particularmente delicado, buscando conciliar um calendário futebolístico global cada vez mais saturado com a necessidade de novas fontes de receita. Para Figo, a abordagem de Infantino nas negociações – conduzidas nos bastidores, sem a devida transparência e com o risco de comprometer a integridade do torneio mais prestigiado do esporte – representa um ponto de inflexão. “É tarde demais para salvar a dignidade dele, mas não é tarde demais para salvar o futebol”, afirmou o português.
O reflexo da gestão de Infantino no poder da FIFA
A proposta de alienar participações na Copa do Mundo a fundos de investimento não foi apenas uma ideia audaciosa; configurou uma mudança estrutural no controle do futebol. Ao ceder o torneio a acionistas privados, Infantino criaria um precedente perigoso, onde a maximização do lucro de curto prazo poderia prevalecer sobre decisões esportivas e a distribuição equitativa de receitas entre as 211 federações filiadas.
Figo, com seu profundo conhecimento dos meandros do poder no futebol, enxerga esse movimento como uma traição aos princípios fundamentais do esporte. A resposta contundente da Uefa, sob a liderança de Aleksander Ceferin, demonstrou que até mesmo aliados tradicionais de Infantino estão dispostos a romper laços. O silêncio de outras confederações, como a Conmebol, tradicionalmente um pilar de apoio ao presidente da FIFA, sugere um isolamento maior do que se percebe inicialmente.
O episódio também lança luz sobre as fragilidades da governança no futebol internacional. Em um contexto onde clubes como Manchester City e PSG enfrentam escrutínio por violações do fair play financeiro, a FIFA tenta implementar mecanismos para atrair capital externo sem uma prestação de contas clara. A crítica de Figo transcende a esfera moral, configurando-se como uma denúncia a um modelo de gestão que trata o futebol como um mero ativo financeiro, e não como um patrimônio cultural de valor inestimável.
Implicações da crise na FIFA para o futebol brasileiro
Para o Brasil, as disputas pelo comando da FIFA extrapolam a distância de uma mera novela distante. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sob a presidência de Ednaldo Rodrigues, é diretamente influenciada pelas verbas e pelo calendário estabelecidos pela entidade máxima. Uma eventual saída de Infantino poderia reabrir discussões cruciais sobre a distribuição de vagas na Copa do Mundo de 2026 e o formato do Mundial de Clubes, temas de grande interesse para clubes como Flamengo, Palmeiras e outras potências nacionais.
Ademais, a postura de Figo atua como um espelho para os dirigentes brasileiros. Quando um ídolo histórico, com experiência em cargos de influência europeia, opta por um rompimento público com o establishment, isso envia um sinal claro sobre o esgotamento da paciência com gestões autocráticas. No Brasil, onde a torcida anseia por transparência e resultados, a crise na FIFA pode catalisar debates sobre a profissionalização das federações estaduais e a modernização do estatuto da CBF.
O impacto prático da instabilidade em Zurique é imediato, com atrasos em decisões cruciais relativas a direitos de transmissão e patrocínios para o próximo ciclo de Copas. Clubes brasileiros que almejam maiores receitas em competições internacionais devem acompanhar atentamente os próximos movimentos de Infantino. Uma eventual queda do presidente resultaria em uma reconfiguração completa do cenário político do futebol sul-americano.
A corrida pela sucessão na FIFA apenas se inicia
Com a pressão crescente, a questão que ecoa nos corredores do poder é: quem poderá suceder Infantino? Nomes como o do francês Vincent Labrune, presidente da LFP, e o próprio Aleksander Ceferin já são mencionados. Contudo, nenhum deles parece possuir o apelo global que a FIFA considera essencial. Figo, com sua trajetória e eloquência, poderia emergir como uma alternativa, apesar de sua candidatura em 2015 ter sido infrutífera.
O cenário mais provável é que Infantino tente resistir até o Congresso da FIFA no próximo ano, capitalizando os recursos administrativos à sua disposição. No entanto, a aliança entre a Uefa e as ligas europeias, que já demonstrou sua força ao derrubar o projeto da Superliga, evidenciou que a resistência organizada tem o poder de prevalecer. Caso a pressão se mantenha, a renúncia pode se concretizar em questão de semanas, e não meses.
O futebol mundial encontra-se em um momento decisivo. A saída de Infantino não solucionaria todos os problemas, mas abriria um espaço fundamental para um debate mais democrático sobre o futuro do esporte. Ao erguer sua voz, Figo não está apenas criticando um indivíduo; ele clama por uma refundação ética do esporte que o consagrou. E para o torcedor brasileiro, familiarizado com crises semelhantes na CBF, a lição é inequívoca: a pressão popular e a coragem de figuras públicas podem, de fato, moldar o destino do futebol.