A declaração de um aliado de Gianni Infantino reacendeu o debate sobre a estabilidade da presidência da FIFA, sob crescente pressão. Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, Mustapha Raji, presidente da Federação de Futebol da Libéria, defendeu o dirigente suíço com uma afirmação contundente: “Levaria um tiro por ele”. A fala simbólica busca blindar Infantino, em meio a investigações e críticas que rondam a entidade máxima do futebol.
Raji, também membro do Conselho da FIFA, afirmou que a maioria das federações o apoia, contrariando rumores de isolamento. “As pessoas falam muito, mas a base está com ele. A maioria dos países da FIFA reconhece o trabalho feito”, disse o dirigente liberiano. A declaração surge em momento delicado, com a entidade sob escrutínio da gestão de direitos de transmissão à polêmica Copa do Mundo de 2034, na Arábia Saudita.
Enquanto Infantino busca consolidar legado e novo mandato, a lealdade de Raji revela a complexa engenharia política da FIFA. Contudo, a declaração não apaga as sombras de escândalos de corrupção na entidade. Resta saber: o apoio de Raji reflete a realidade das 211 federações filiadas?
O que a defesa de Raji revela sobre a política interna da FIFA
A declaração de Mustapha Raji não é apenas um ato de lealdade; é uma peça estratégica no xadrez político da FIFA, envolvendo sucessão e manutenção de poder. Ao se posicionar como um “escudo humano” para Infantino, o liberiano sinaliza que a base africana, influente nas votações, permanece coesa em torno do presidente. Essa movimentação é crucial enquanto a UEFA, sob Aleksander Ceferin, busca ampliar sua influência nas decisões globais.
Análises indicam que Infantino, que assumiu em 2016 após Joseph Blatter, construiu sua base de poder em acordos regionais e distribuição de receitas a federações mais pobres. O apoio de Raji reflete diretamente essa política: África e Ásia, com investimentos significativos em programas de desenvolvimento, são os pilares da atual gestão. A fala do liberiano é, portanto, uma mensagem clara aos opositores de que desestabilizar Infantino encontrará resistência organizada.
Contudo, a declaração expõe a fragilidade do discurso de transparência que marcou o início da gestão de Infantino. Em vez de focar em resultados concretos (modernização de competições ou luta contra o racismo), a pauta retorna à lealdade pessoal e ao poder político. Para observadores atentos, a fala de Raji soa como uma tentativa de abafar críticas sobre a falta de prestação de contas em temas sensíveis, como a escolha de sedes de Copas e acordos comerciais com parceiros do Oriente Médio.
Por que isso importa para o futebol brasileiro e para a CBF
A disputa por poder na FIFA não é distante para o Brasil. A CBF, com Ednaldo Rodrigues, tem em Infantino um interlocutor direto para calendário internacional e participação de clubes em competições globais. A estabilidade de Infantino garante a manutenção de um canal de diálogo vital para a CBF, que busca se fortalecer após anos de intervenção judicial.
Para o torcedor brasileiro, a política da FIFA pode parecer distante, mas impacta diretamente o dia a dia do esporte. O formato da nova Copa do Mundo de Clubes (com Flamengo, Palmeiras, Fluminense e Botafogo) exemplifica como decisões de Zurique ecoam nacionalmente. Se Infantino perder força, a expansão do Mundial de Clubes para 32 equipes, de interesse direto dos clubes brasileiros, pode ser engavetada.
Além disso, a veemente defesa de Raji a Infantino serve como um alerta à CBF e aos clubes brasileiros: a política que define os rumos do futebol mundial é movida por alianças e interesses que vão muito além do mérito esportivo. Para Ednaldo Rodrigues, manter um bom relacionamento com a cúpula da FIFA é tão crucial quanto negociar contratos de patrocínio ou organizar a logística da Seleção Brasileira. O apoio incondicional de Raji a Infantino lembra que, no futebol, a política de bastidores muitas vezes decide o jogo antes mesmo da bola rolar.
A corrida pela sucessão e o futuro do futebol global
Os próximos meses prometem intensa movimentação nos bastidores da FIFA. Com a Copa de 2026 (EUA, Canadá e México) se aproximando, Infantino busca capitalizar o sucesso comercial para um novo mandato. A declaração de Mustapha Raji, nesse contexto, é uma tentativa de criar uma narrativa de normalidade e apoio maciço, isolando vozes dissonantes como a da UEFA e de organizações de direitos humanos que criticam a escolha da Arábia Saudita para sediar o Mundial de 2034.
No entanto, a história recente da FIFA ensina que o poder é volátil. A base de apoio que hoje parece sólida pode se fragmentar rapidamente se os interesses regionais forem contrariados. A África, reduto de Infantino, pode mudar de posição se investimentos falharem ou surgirem candidatos com propostas de receita mais agressivas. O jogo de xadrez político, portanto, está longe de terminar, e a fala de Raji pode ser apenas o primeiro movimento de uma partida que promete ser longa.
Para o futebol brasileiro, a recomendação é clara: acompanhar de perto os movimentos de Infantino e de seus aliados, como Raji, é essencial para entender as oportunidades e os riscos que virão. A CBF e os clubes precisam estar preparados para um cenário de continuidade, mas também para uma eventual transição de poder, que pode trazer novas regras e novos interlocutores. O futuro do futebol global, com disputas por calendário, receitas e reformas, está sendo escrito em Zurique, e o Brasil precisa ter assento garantido nessa mesa de negociações.