Em um movimento audacioso que pode reconfigurar o cenário do futebol mundial, a UEFA, liderada por Aleksander Čeferin, e a Concacaf, sob o comando de Victor Montagliani, iniciaram conversas para a criação de uma Liga das Nações conjunta. O ambicioso projeto visa unir as 96 seleções de Europa, América do Norte, Central e Caribe em um torneio bienal, com uma possível estreia já em 2028. A informação, divulgada pelo The Guardian, indica que as duas confederações buscam construir um calendário alternativo ao proposto pela FIFA de Gianni Infantino, que tem defendido a realização da Copa do Mundo a cada dois anos e um novo formato expandido para o Mundial de Clubes.
Esta aliança estratégica surge como uma resposta direta às iniciativas de Infantino. Para a Seleção Brasileira, o cenário é de atenção redobrada. Enquanto a Conmebol, sob a gestão de Alejandro Domínguez, mantém sua aliança com a FIFA, a formação de um bloco UEFA-Concacaf pode levar ao isolamento do futebol sul-americano e impactar significativamente o planejamento de Dorival Júnior para a Copa do Mundo de 2026 e os ciclos subsequentes.
A proposta, ainda em fase inicial, contempla a participação de todas as 55 seleções da UEFA e as 41 da Concacaf, configurando uma competição inédita. A ideia é que o torneio utilize as janelas de datas Fifa em setembro, outubro e novembro, tradicionalmente reservadas para amistosos e eliminatórias regionais. O objetivo é criar um produto de alto apelo comercial para emissoras e patrocinadores. Contudo, a iniciativa já esbarra na resistência de ligas nacionais e clubes de ponta, como os da Premier League, que expressam preocupações com o aumento da carga de jogos.
A aliança UEFA-Concacaf como movimento político contra a FIFA
A aproximação entre Čeferin e Montagliani transcende a esfera institucional, assumindo um caráter político. Ambos os dirigentes identificam em Gianni Infantino um rival que centraliza o poder e demonstra pouca consideração pelas confederações menores. A UEFA, potência financeira do futebol, e a Concacaf, em ascensão com a organização da Copa de 2026 ao lado de México e Canadá, vislumbram um torneio conjunto capaz de gerar receitas bilionárias e fortalecer suas posições na futura disputa pela presidência da FIFA, marcada para 2027.
O calendário do futebol internacional torna-se o principal campo de batalha. Diante da proposta da FIFA de uma Copa do Mundo bienal, que poderia desvalorizar as eliminatórias e torneios continentais, UEFA e Concacaf demonstram a capacidade de desenvolver produtos próprios, sem depender da entidade máxima. Para a Conmebol, cujas principais fontes de receita provêm da Copa América e das eliminatórias, a pressão aumenta. Caso o eixo Europa-Américas do Norte se consolide, a Seleção Brasileira corre o risco de ter suas datas Fifa reduzidas, e a relevância de amistosos contra seleções europeias de ponta pode diminuir frente a jogos oficiais do novo torneio.
O impacto para o Brasil, que enfrenta a Argentina de Lionel Messi nas eliminatórias, é duplo. Além da potencial disputa por datas, há o risco de desvalorização dos amistosos de alto nível que a CBF habitualmente organiza. Com a UEFA e a Concacaf utilizando as janelas com jogos competitivos, é provável que as potências europeias priorizem a nova competição, relegando a Seleção Brasileira a enfrentar adversários de menor apelo comercial.
Implicações para a Seleção Brasileira e o calendário global
Para o torcedor brasileiro, a novidade pode significar uma redução de amistosos em favor de jogos oficiais, mas com a contrapartida de uma possível exclusão da Conmebol do novo formato. Se a UEFA e a Concacaf avançarem, a FIFA de Infantino poderá impor retaliações, limitando a Seleção Brasileira de Dorival Júnior às eliminatórias e à Copa América. Isso poderia diminuir a exposição internacional do time, afetando a atratividade para jogadores e patrocinadores.
Clubes brasileiros, como Flamengo e Palmeiras, também sentirão o impacto. O aumento de datas internacionais implicaria ausências mais longas de atletas convocados, prejudicando as equipes em momentos cruciais do Brasileirão e da Copa Libertadores. A pressão sobre o já saturado calendário doméstico tende a crescer, exigindo negociações da CBF com as ligas para evitar um colapso logístico.
No aspecto comercial, a UEFA já fatura cerca de 3 bilhões de euros por ciclo com a Champions League, e a Liga das Nações gera 1,5 bilhão. Um torneio conjunto com a Concacaf, explorando os mercados dos Estados Unidos e do México, tem potencial para superar esses valores, atraindo gigantes do streaming como Apple e Netflix, atualmente em disputa pelos direitos de transmissão do futebol. Para o Brasil, que nutre o desejo de sediar uma Copa do Mundo novamente, a mensagem é clara: o eixo de poder está em movimento, e a Conmebol necessita de uma resposta ágil.
A corrida contra o tempo: o futuro até 2028
O prazo de 2028 é ambicioso, mas factível. UEFA e Concacaf possuem a estrutura e o capital para lançar o torneio logo após a Eurocopa daquele ano. No entanto, enfrentarão a resistência da FIFA, que pode aplicar sanções às confederações ou instituir um calendário global obrigatório que inviabilize o projeto. A pressão de Infantino, que já ameaçou excluir clubes e seleções participantes de competições não sancionadas, representa o principal obstáculo.
Para a Seleção Brasileira, o cenário mais provável envolve negociações complexas. A Conmebol, que em 2028 terá a Copa América como trunfo, poderá buscar um acordo com a UEFA para incluir Brasil e Argentina como convidados no novo torneio, ou desenvolver uma versão sul-americana da Liga das Nações. O controle do futebol mundial está em jogo, e a iniciativa de Čeferin e Montagliani pode forçar a FIFA a ceder ou a intensificar sua postura. O futebol brasileiro, outrora protagonista incontestável, observa de perto esta disputa pelo poder. Se a UEFA e a Concacaf prevalecerem, o Brasil poderá ser forçado a se reinventar; se a FIFA de Infantino se impuser, o calendário continuará sob o domínio de um líder com claras ambições. A próxima década será decisiva, e a Seleção Brasileira precisa garantir uma voz ativa nas negociações, antes que o futuro do esporte seja decidido sem sua participação.