Quarenta e quatro anos depois, a Copa do Mundo corre o risco de reviver um dos seus capítulos mais constrangedores. Em 1982, na Espanha, o ‘Jogo da Vergonha’ entre Alemanha Ocidental e Áustria culminou no placar de 1 a 0 que, convenientemente, classificou ambas e eliminou a Argélia, expondo as falhas do regulamento da época. Agora, com a expansão do Mundial para 48 seleções em 2026, o temor de novos conluios táticos ressurge, preocupando torcedores e dirigentes.
O novo formato da FIFA contempla 12 grupos de quatro seleções. Avançarão para a fase eliminatória os dois primeiros de cada chave e os oito melhores terceiros colocados. Essa configuração, como apontado pelo jornal alemão Kicker, abre margem para combinações de resultados que facilitam acordos velados. O cenário é perigosamente semelhante ao de Gijón, quando Alemanha e Áustria, após o gol alemão aos 10 minutos, abdicaram de competir para garantir o resultado que selou o destino da Argélia.
A complexidade reside na classificação dos oito melhores entre os doze terceiros colocados. Isso pode levar equipes a entrar em campo na última rodada sabendo exatamente o resultado de que precisam (um empate, uma derrota por margem mínima) para avançar. A FIFA afirma estar revisando detalhes do regulamento, mas até o momento, nenhuma alteração concreta foi apresentada, elevando a possibilidade de um ‘Jogo da Vergonha’ 2.0.
O risco real de um novo conluio em 2026
A principal vulnerabilidade do regulamento não está na ‘última rodada simultânea’, mas na forma como ela interage com a classificação dos terceiros. Em 1982, Alemanha e Áustria sabiam que o 1 a 0 classificava ambos. O jogo transcorreu sem intensidade, com passes laterais sob vaias da torcida. O árbitro da partida, o brasileiro Arnaldo Cézar Coelho, viu-se impotente diante da falta de combatividade.
No formato de 2026, essa vulnerabilidade se amplifica. Com 12 grupos, a definição dos melhores terceiros cria uma situação em que equipes no último dia de jogos da fase de grupos saberão os resultados dos times de outros grupos. Uma seleção já classificada, ou mesmo uma que precise de um empate, poderá ‘administrar’ o placar para garantir a vaga ou, hipoteticamente, favorecer um adversário em detrimento de outro.
A FIFA aponta para critérios de desempate, como o de ‘jogo limpo’ (baseado em cartões), como um desincentivo, mas analistas consideram a medida insuficiente para anular o benefício tático de um resultado combinado. O ex-técnico da Seleção Alemã, Joachim Löw, já manifestou sua preocupação, afirmando que “enquanto houver interesse mútuo, haverá risco de conluio”. A história do futebol corrobora essa visão.
O que muda para o torcedor brasileiro
Para os apaixonados pelo futebol brasileiro, a ameaça é palpável. O Brasil pode ser tanto vítima quanto, em um cenário extremo, participante de um desses jogos calculados. A maior ameaça é ser eliminado por um acordo entre dois rivais que, com um empate, garantam a classificação de ambos, um deles como melhor terceiro colocado. Isso pode ocorrer mesmo que a Seleção Brasileira não esteja em campo.
O regulamento da FIFA prevê punições para comprovada má-fé, mas obter provas concretas é um desafio hercúleo. Em 1982, nenhuma sanção foi aplicada, e o ‘Jogo da Vergonha’ permaneceu como uma mancha histórica. Com mais equipes e mais vagas em jogo, a tentação de manipular resultados para garantir a classificação na fase eliminatória aumenta consideravelmente.
Os torcedores brasileiros, habituados a ver sua seleção como protagonista, precisam estar alertas. A Copa de 2026 pode apresentar partidas que mais se assemelhem a um jogo de xadrez do que a um espetáculo de futebol. Se a matemática prevalecer sobre a esportividade, a vergonha poderá se repetir.
A corrida contra o tempo para evitar a vergonha
A FIFA ainda tem tempo para refinar o regulamento antes do sorteio dos grupos, previsto para o final de 2025. A principal crítica de especialistas não é a rodada simultânea — medida criada justamente após 1982 —, mas o fato de que os jogos dos últimos grupos acontecerão com pleno conhecimento dos resultados necessários para superar os terceiros colocados que já encerraram sua participação. Uma proposta visa utilizar o VAR para monitorar lances de falta de competitividade, embora a subjetividade seja um grande obstáculo.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, reiterou ao L’Équipe que “a integridade do jogo é prioridade”, mas não especificou medidas concretas. Enquanto isso, federações e analistas observam atentamente as brechas do novo formato. O futebol brasileiro, conhecido por sua essência ofensiva, pode ser forçado a testemunhar um novo ‘Jogo da Vergonha’ caso a FIFA não tome providências eficazes. A história não precisa se repetir, mas o tempo é um fator crucial.