A atmosfera vibrante e a paixão contagiante das torcidas do Equador e do Canadá nas primeiras partidas da Copa do Mundo de 2026 já justificaram a expansão do torneio para 48 seleções. O temor inicial de jogos sem brilho e estádios esvaziados se dissipou diante da celebração genuína de nações como Eslovênia e Panamá, que transformaram cada gol em um momento de glória. Relatos de enviados especiais do Globo Esporte atestam uma energia contagiante, capaz de conquistar até os mais céticos.
Esportivamente, a qualidade técnica geral se manteve em um nível satisfatório. Embora algumas partidas tenham apresentado um ritmo mais cadenciado, como o confronto entre Arábia Saudita e Nova Zelândia, o saldo geral é positivo. A Fifa, sob a liderança de Gianni Infantino, buscou provar a universalidade do futebol e fortalecer sua marca em novos mercados. A festa protagonizada pelas novas participantes confirma o sucesso dessa tese no quesito engajamento.
O Modelo de Negócios da Fifa em Expansão
Por trás da festa nas arquibancadas, reside uma complexa estratégia financeira. O aumento do número de seleções visa expandir a receita proveniente de direitos de transmissão, patrocínios regionais e, crucialmente, aumentar o engajamento em países onde o futebol não é o esporte dominante. O Canadá, por exemplo, atraiu uma audiência antes focada no hóquei no gelo, enquanto a Eslovênia abriu portas para uma penetração mais eficaz do futebol no leste europeu.
O formato com 12 grupos de 4 equipes, permitindo a classificação dos 8 melhores terceiros colocados, embora criticado por puristas, manteve a competitividade até as rodadas finais. Ao contrário das previsões, não houve uma avalanche de goleadas expressivas. Pelo contrário, equipes como a Seleção Marroquina e a Seleção Japonesa demonstraram que a diferença técnica entre as posições mais altas e mais baixas do ranking da Fifa é menor do que se pensava. Tal desempenho valoriza o trabalho de treinadores como Hajime Moriyasu e Walid Regragui, que implementaram sistemas táticos eficientes com elencos limitados.
Impacto para o Futebol Brasileiro e Clubes da Série A
Para o Brasil, já classificado e em busca do hexacampeonato sob o comando de Dorival Júnior, a expansão oferece um benefício colateral significativo: uma vitrine global ampliada. Jogadores atuantes em ligas menos tradicionais, como a Major League Soccer (MLS) ou o Campeonato Saudita, ganham maior visibilidade, potencialmente valorizando seus passes. Clubes brasileiros como Flamengo, Palmeiras e Grêmio devem estar atentos, pois a concorrência por jovens talentos de nações como Uzbequistão e Cabo Verde tende a se intensificar devido à maior exposição no palco mundialista.
A logística também se torna um fator de peso. A distribuição da Copa por mais cidades-sede nos Estados Unidos, Canadá e México implica em maiores deslocamentos e desgaste físico. Para os departamentos médicos dos clubes, isso eleva o risco de lesões. O já sobrecarregado calendário do futebol brasileiro pode sofrer com jogadores retornando exaustos ou se recuperando de problemas musculares, exigindo que a CBF e os clubes reavaliem a gestão da carga física dos atletas convocados.
O Futuro da Competição
Enquanto a primeira fase validou o acerto da expansão, a fase eliminatória representará o verdadeiro teste. Jogos de mata-mata com a participação de 48 seleções podem permitir que equipes teoricamente mais fracas cheguem com menos desgaste, mas também com menor bagagem em partidas decisivas. Espera-se que as seleções tradicionais, como Alemanha, Argentina e França, tirem proveito da profundidade de seus elencos. Ao mesmo tempo, a frequência de surpresas, a exemplo da Seleção Costarriquenha em 2014, pode aumentar, enriquecendo o espetáculo.
O modelo de 48 seleções é uma realidade consolidada, com a Fifa já vislumbrando um torneio com 64 equipes para 2034, o que acarretaria em receitas ainda maiores. No entanto, o alerta persiste: é fundamental encontrar um equilíbrio entre a celebração global e a qualidade técnica. Se o aspecto comercial se sobrepuser excessivamente, o torneio corre o risco de se tornar uma exposição, diluindo a relevância do jogo em si. Por ora, contudo, o balanço é de uma Copa mais democrática, repleta de cores nas arquibancadas e com um futebol que, mesmo com momentos de menor intensidade, continua a emocionar.