Uma revolução no formato do mata-mata da Copa do Mundo pode estar a caminho. A Fifa, sob a gestão de Gianni Infantino, estuda uma mudança drástica: eliminar a prorrogação, enviando os jogos diretamente para a disputa de pênaltis após os 90 minutos, caso haja empate. A informação, apurada pela Trivela, revela a intenção de dinamizar o espetáculo e reduzir o desgaste físico imposto pelos 120 minutos. A proposta, ainda em fase de análise, promete impactar profundamente a estratégia de treinadores e seleções, como já pensam Tite e Didier Deschamps.
Esta não é uma alteração trivial. Desde 1998, a Copa do Mundo adota o sistema de prorrogação seguida de pênaltis, com a breve exceção do ‘gol de ouro’ em 2006. Agora, a entidade máxima do futebol busca um modelo que priorize a intensidade e a saúde dos atletas. A principal justificativa é tornar os confrontos mais dinâmicos e mitigar o risco de lesões, uma preocupação crescente para grandes clubes europeus, como Real Madrid e Manchester City, que cedem seus craques às seleções.
A discussão intensifica-se com a proximidade da Copa do Mundo de 2026, a ser realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Com a expansão para 48 seleções e um calendário naturalmente mais denso, a Fifa busca otimizar a competição, mantendo o alto nível técnico e a emoção característicos. Contudo, a proposta já divide federações e comissões técnicas, muitos dos quais consideram a prorrogação um teste fundamental de resistência e estratégia.
O que a Fifa propõe e como isso muda o jogo
A essência da proposta é cristalina: abolir a prorrogação e encaminhar as partidas empatadas diretamente para a disputa de pênaltis. Isso significa que os 30 minutos adicionais seriam eliminados, obrigando as equipes a definir o confronto nos 90 minutos regulamentares ou a confiar na sorte dos onze metros. O impacto seria monumental para seleções como a Argentina de Lionel Messi, que em 2022 superou a França nos pênaltis após um dramático 3 a 3 na prorrogação. A estratégia de jogo seria reinventada, com treinadores como Lionel Scaloni incentivando uma postura mais agressiva e decisiva desde o apito inicial.
Taticamente, a alteração pode beneficiar seleções com elencos mais homogêneos e menos dependentes de individualidades. Equipes como a Alemanha de Julian Nagelsmann, historicamente mais ofensivas mas por vezes com dificuldades na definição final, seriam compelidas a adotar um modelo de eficiência imediata. Em contrapartida, times de perfil mais defensivo, a exemplo da surpreendente seleção marroquina de Walid Regragui em 2022, perderiam a valiosa oportunidade de desgastar o adversário e explorar o cansaço na prorrogação.
A Fifa também cogita implementar um sistema de pênaltis de ‘morte súbita’ após as cinco cobranças iniciais, um formato já visto em torneios como a Copa da Liga Inglesa. Segundo a Trivela, essa medida buscaria não apenas reduzir a duração total dos jogos, mas também intensificar a imprevisibilidade. Críticos, porém, alertam que tal sistema poderia banalizar a emoção da disputa de penalidades, aproximando-a perigosamente de um mero jogo de azar.
Por que isso importa para o futebol brasileiro
Para o Brasil, esta mudança ressoa de maneira particular. A Seleção Brasileira, agora sob a batuta de Dorival Júnior, possui um histórico delicado em decisões por pênaltis, relembrando as dolorosas eliminações contra Croácia (2022) e Chile (2014). Sem a prorrogação, a Canarinho seria forçada a ser mais incisiva e decisiva nos 90 minutos regulamentares, uma característica que nem sempre foi sua marca. Estrelas como Vinícius Júnior e Rodrygo, que brilham no Real Madrid, teriam de assumir uma responsabilidade ofensiva ainda maior, dado que a margem para erro diminuiria drasticamente.
Adicionalmente, clubes brasileiros de ponta, como Flamengo e Palmeiras, que regularmente cedem seus talentos à seleção, poderiam se beneficiar indiretamente. Menos tempo de jogo na Copa implicaria em menor desgaste físico para os atletas, que retornariam a seus clubes com mais vitalidade para as disputas do Brasileirão e da Libertadores. A CBF, por sua vez, teria de recalibrar a preparação da equipe para torneios de mata-mata, intensificando os treinos de pênaltis e as estratégias de jogo que busquem a vitória nos 90 minutos.
Para o torcedor brasileiro, essa alteração pode representar tanto um alívio quanto uma nova fonte de angústia. Quem não recorda a eletrizante tensão dos pênaltis contra a Itália em 1994, que culminou no tetracampeonato com Romário e Bebeto? Mas há também a cicatriz de 1950, quando o Maracanã emudeceu. A Fifa, ao suprimir a prorrogação, sinaliza uma aposta em um futebol mais objetivo e fluído, um estilo que o público brasileiro, tradicionalmente apaixonado pelo jogo ofensivo, pode, paradoxalmente, abraçar ou criticar.
O que esperar dos próximos passos da Fifa
A proposta, embora em fase de consulta, aponta para a apresentação de um modelo definitivo pela Fifa até o final de 2025, visando testes em competições como a Copa das Confederações ou o Mundial de Clubes. A resistência é esperada de federações europeias, como a UEFA, que valorizam a prorrogação como um pilar tático clássico do futebol. Contudo, impulsionada pela necessidade de um calendário mais enxuto e a constante busca por engajamento e audiência, a mudança tem grandes chances de ser aprovada.
Caso aprovada, a nova regra seria implementada já na Copa do Mundo de 2026, com suas inéditas 48 seleções e 104 partidas. O formato de mata-mata, intrinsecamente o mais eletrizante do esporte, estaria prestes a escrever um novo e imprevisível capítulo. Para o Brasil, a adaptação será vital: sem a prorrogação, a Seleção terá o desafio de ser decisiva em 90 minutos, algo que não ocorre em uma final desde 2002, quando superou a Alemanha por 2 a 0. O futebol brasileiro, sempre laureado por seu estilo ofensivo, terá a oportunidade de reafirmar sua excelência mundial – sem o respiro dos 30 minutos extras.