Thierry Henry, ícone da Seleção Francesa e atual comentarista, não poupou críticas à abordagem tática da equipe de Didier Deschamps na derrota por 2 a 0 para a Espanha, na semifinal da Copa do Mundo. Segundo o ex-jogador, a França entrou em campo com uma mentalidade excessivamente defensiva, o que, na sua visão, custou a vaga na final. Henry comparou a situação com a sua própria experiência como jogador em 2006, quando a França também foi eliminada pela Itália por não conseguir impor seu estilo de jogo. A declaração, concedida ao canal britânico BBC, lança luz sobre um dilema tático que pode sinalizar o fim de um ciclo para a aclamada geração campeã de 2018.
O duelo contra a Espanha foi o único jogo do torneio em que a França não conseguiu marcar gols, expondo uma fragilidade que, segundo Henry, estava sendo mascarada por vitórias conquistadas com dificuldade contra Inglaterra e Marrocos. Enquanto a equipe espanhola, sob o comando de Luis Enrique, dominou a posse de bola e exerceu forte pressão na saída de bola francesa, os comandados de Deschamps pareceram resignados a aguardar um erro adversário que nunca se materializou. Na análise de Henry, a França demonstrou uma falta de agressividade que se mostrou fatal.
A Retraída Francesa sob o Comando de Deschamps
Didier Deschamps edificou sua carreira na seleção francesa com base em um estilo de jogo pragmático, focado em transições rápidas e uma defesa sólida. No entanto, contra a Espanha, essa estratégia mostrou-se ineficaz, pois o adversário impediu a execução dos contra-ataques velozes de Kylian Mbappé e Antoine Griezmann. Dados da Opta revelam que a França realizou apenas 4 finalizações a gol, o seu pior desempenho ofensivo em toda a competição.
Henry, campeão mundial em 1998 e vice em 2006, relembrou a campanha francesa de 2006, destacando que, apesar de um elenco forte, a excessiva cautela na final contra a Itália foi prejudicial. “Vivi isso como jogador. Você acredita que está no controle do jogo, mas, na verdade, está permitindo que o adversário defina o ritmo”, comentou o ex-atacante. A comparação é clara: a França atual, assim como a de 2006, possui talento individual de sobra, mas carece de ambição coletiva nos momentos cruciais.
O meio-campo francês, composto por Adrien Rabiot e Aurélien Tchouaméni, foi completamente anulado pela pressão espanhola. Adicionalmente, a dupla de zaga formada por Raphaël Varane e Dayot Upamecano falhou em construir jogadas desde a defesa, um elemento crucial para romper as linhas adversárias. A ausência de um armador criativo, como um N’Golo Kanté em sua plenitude, foi notória.
Reflexos da Eliminação Francesa para o Futebol Brasileiro
Para os torcedores brasileiros, a queda da França na Copa do Mundo oferece importantes insights. A Seleção Brasileira, eliminada nas quartas de final pela Croácia, viu seu algoz histórico de 1998 e 2006 ser desmontado taticamente por uma Espanha que priorizou o controle da posse de bola. Isso reforça a ideia de que o futebol de transição, largamente empregado por Tite, necessita de ajustes para enfrentar equipes com domínio de jogo.
Ademais, a França representava a única seleção europeia com um estilo que guardava semelhanças com o brasileiro — velocidade, drible e improvisação. Com a sua saída, a disputa pelo título agora se concentra em equipes que valorizam o coletivo e a paciência, como Argentina e Espanha. Para clubes brasileiros que negociam jogadores com o mercado europeu, a mensagem é clara: a demanda por meio-campistas criativos e zagueiros com boa capacidade de construção de jogadas a partir da defesa tende a aumentar.
O próprio Henry, com passagens por Monaco e Arsenal, ressaltou a necessidade de a França reavaliar sua filosofia de jogo para almejar novos títulos. “Não adianta ter os melhores jogadores do mundo se você não sabe como utilizá-los quando o adversário te pressiona”, declarou. A declaração ecoa nos bastidores da CBF, que observa atentamente o desenrolar do fim de um ciclo na Europa.
O Futuro da França e o Legado de Deschamps
Com a eliminação, o futuro de Didier Deschamps no comando da seleção francesa torna-se incerto. Apesar de seu contrato se estender até 2024, a pressão por uma renovação tática é considerável. Nomes como Zinedine Zidane já surgem como possíveis substitutos, caso a federação francesa opte por uma mudança de direção. A geração de Mbappé, Griezmann e Eduardo Camavinga ainda possui idade para disputar a Eurocopa de 2024, mas necessita de um projeto de jogo mais ambicioso.
Para Henry, a principal lição para a França é a necessidade de aprender a ser protagonista, e não coadjuvante. “Você não pode esperar que o adversário cometa erros. É preciso forçá-los”, resumiu. Se a federação francesa acatar as palavras do ex-jogador, o período pós-Copa poderá marcar o início de um futebol mais ofensivo e menos reativo. Caso contrário, a França corre o risco de perpetuar os mesmos erros que a afastaram de uma final que se mostrava ao seu alcance.