Quando a Inglaterra de Harry Kane entrar em campo nesta terça-feira (23) contra Gana, não estará em jogo apenas a vaga nas oitavas de final. Os Black Stars carregam um peso histórico: nenhuma seleção africana jamais venceu os ingleses em uma Copa do Mundo. O retrospecto é implacável — em seis confrontos contra times da África, a Inglaterra venceu cinco e empatou um, justamente com a Argélia em 2010. Para Gana, quebrar esse tabu significaria mais do que três pontos; seria um marco para o continente inteiro.
O duelo no Estádio Ahmed bin Ali, em Al Rayyan, coloca frente a frente duas gerações em momentos opostos. A Inglaterra, comandada por Gareth Southgate, vive a expectativa de repetir o vice-campeonato de 2018 e conta com um ataque afiado — Kane já marcou duas vezes na competição. Gana, por sua vez, aposta na velocidade de Jordan Ayew e na experiência de André Ayew para surpreender. A partida é decisiva: uma vitória inglesa garante a classificação antecipada, enquanto os africanos precisam dos pontos para seguir vivos no Grupo B.
O tabu, no entanto, não é apenas estatístico. Reflete uma dificuldade histórica das seleções africanas em traduzir talento individual em resultados contra potências europeias em Copas. Gana já chegou perto: em 2010, nos quartas de final contra o Uruguai, faltou um pênalti convertido para ser a primeira africana semifinalista. Agora, contra a Inglaterra, o sonho renasce.
O que o retrospecto esconde: a evolução tática de Gana
Olhar apenas para os números engana. A última vez que Inglaterra e Gana se enfrentaram em uma Copa foi em 2006, na fase de grupos, com vitória inglesa por 2 a 0. Mas o futebol africano mudou. Sob o comando do técnico Otto Addo, Gana abandonou o estilo reativo e passou a pressionar alto, como mostrou na derrota por 3 a 2 para Portugal — jogo em que teve chances claras de empatar. A Seleção Ganesa hoje combina juventude — Mohammed Kudus, do Ajax, é o principal articulador — com a liderança dos Ayew, que somam mais de 100 partidas pela seleção.
O ponto fraco está na defesa. Gana sofreu gols em todos os jogos da Copa até aqui, e a Inglaterra tem em Kane um finalista letal. Mas os ingleses também mostraram vulnerabilidade: contra os Estados Unidos, o ataque pouco produziu, e a defesa de John Stones e Harry Maguire foi pressionada em bolas aéreas. É por aí que Gana pode explorar, com a impulsão de Daniel Amartey em escanteios. O tabu, portanto, não é intocável — depende de execução tática e, claro, de um pouco de sorte.
Por que isso importa para o futebol brasileiro e africano
Para o torcedor brasileiro, o jogo tem camadas extras. Primeiro, porque o Brasil enfrenta Gana em amistoso em setembro e venceu por 3 a 0 — mas a Seleção Brasileira sabe que times africanos evoluíram fisicamente e tecnicamente. Segundo, porque o desempenho de Gana pode influenciar o mercado: jogadores como Kudus e Iñaki Williams (que defende Gana, mas nasceu na Espanha) já são monitorados por clubes brasileiros, segundo o Globo Esporte. Uma vitória histórica valorizaria ainda mais esses atletas.
Além disso, o resultado mexe com a percepção do continente africano nas Copas. Se Gana vencer, será a primeira vez que uma seleção africana derrota a Inglaterra em Mundiais — feito que nem Camarões (1990), Nigéria (1998) ou Senegal (2002) conseguiram. Para o futebol brasileiro, que enfrenta seleções africanas com frequência em amistosos e na base, o jogo serve como termômetro de como o nível do continente subiu nos últimos anos.
A corrida pela quebra do tabu está apenas começando
Independentemente do resultado, o jogo desta terça já entra para a história como mais um capítulo na luta das seleções africanas por respeito no cenário global. Gana tem armas para vencer, mas precisa de concentração total durante os 90 minutos — algo que faltou contra Portugal, quando sofreu dois gols em bolas paradas. A Inglaterra, por outro lado, não pode subestimar o adversário: se repetir a apatia ofensiva contra os EUA, pode ver o tabu ruir.
O que esperar dos próximos dias? Se Gana vencer, o Grupo B se embaralha completamente, com três times (Inglaterra, Gana e Irã) brigando por duas vagas na última rodada. Se a Inglaterra vencer, confirma a lógica e vira favorita ao primeiro lugar. Mas, para o futebol africano, a mensagem já está dada: o tabu de 56 anos contra a Inglaterra em Copas pode cair a qualquer momento. E, quando cair, abrirá portas para que outras seleções do continente passem a sonhar mais alto.