O número de partidas de futebol na Inglaterra e no País de Gales com incidentes registrados pela polícia atingiu um recorde na temporada 2025-26, segundo relatório do Home Office divulgado na quinta-feira. Foram 1.644 jogos com relatos de “comportamento antissocial, violência e desordem relacionados ao futebol” — um aumento de 4% em relação à temporada anterior. Enquanto isso, o número de prisões voltou aos patamares pré-pandemia: quatro detenções para cada 100 mil torcedores presentes nos estádios. O dado, no entanto, não aliviou a pressão sobre os clubes ingleses, que agora são cobrados publicamente pela polícia para arcarem com mais custos operacionais de segurança.
O cenário contrasta com o Brasil, onde a violência em dias de jogo frequentemente extrapola o perímetro dos estádios e exige um aparato policial pesado — bancado integralmente pelo Estado. Enquanto a Premier League discute modelos de coparticipação, clubes como Flamengo, Corinthians e Palmeiras lidam com torcidas organizadas que, em muitos casos, desafiam o controle das autoridades. A pergunta que fica é: o modelo inglês de segurança compartilhada pode inspirar uma saída para o futebol brasileiro?
O que os números do Home Office revelam sobre o modelo inglês
O relatório do Home Office mostra que, apesar do recorde de partidas com incidentes, a taxa de prisões por torcedor presente caiu. Foram 1.248 detenções na temporada 2025-26, número estável em relação ao ano anterior. Isso indica que os episódios registrados são, em sua maioria, de baixa gravidade — brigas isoladas, invasões de campo e uso de sinalizadores. A polícia inglesa, no entanto, argumenta que o custo operacional para monitorar 1.644 jogos é insustentável apenas com dinheiro público.
Atualmente, os clubes ingleses já pagam parte do policiamento dentro dos estádios, mas a segurança nos arredores — transporte público, ruas adjacentes e pubs — continua sob responsabilidade do Estado. A Associação de Chefes de Polícia (NPCC) propõe que os clubes assumam também esses custos, estimados em milhões de libras por temporada. Times como Manchester United e Arsenal já se opuseram publicamente à medida, alegando que já investem pesado em segurança privada e câmeras de reconhecimento facial.
Por que o debate inglês importa para clubes como Flamengo e Corinthians
No Brasil, a segurança em dias de jogo é quase inteiramente custeada pelo poder público. Em clássicos como Flamengo x Fluminense no Maracanã ou Corinthians x Palmeiras na Neo Química Arena, o efetivo policial chega a centenas de agentes por partida. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, o custo médio de um grande evento de futebol na cidade supera R$ 500 mil — dinheiro que sai dos cofres estaduais.
A diferença é que, aqui, a violência é mais letal. Brigas entre torcidas organizadas, emboscadas em rodovias e confrontos com a polícia são recorrentes. Em 2025, o Brasil registrou ao menos 12 mortes relacionadas a conflitos entre torcedores, segundo levantamento do Globo Esporte. Enquanto a Inglaterra discute rateio de despesas, o Brasil ainda busca soluções básicas de contenção. A proposta inglesa de responsabilizar financeiramente os clubes poderia, em tese, forçar uma profissionalização maior da gestão de torcidas no país.
O que esperar da pressão sobre os clubes nos próximos meses
O Home Office deve apresentar uma proposta formal de revisão do modelo de custeio ainda em 2026. Se aprovada, a medida pode servir de precedente para outras ligas europeias, como a La Liga e a Bundesliga, que enfrentam problemas semelhantes. Para o futebol brasileiro, o caminho é mais longo. A CBF e os clubes ainda não têm um debate estruturado sobre coparticipação em segurança pública — e a tendência é que o tema avance apenas após novas tragédias.
Enquanto isso, a pressão sobre os clubes ingleses deve crescer, especialmente em partidas de alto risco, como Liverpool x Everton ou Chelsea x Tottenham. A polícia quer que os times arquem com o custo de operações especiais fora dos estádios, algo que hoje é bancado pelo contribuinte. Se a medida vingar, o futebol inglês pode se tornar ainda mais caro para os clubes — e mais seguro para quem vai ao estádio. O Brasil, como de costume, observa de longe, mas deveria começar a tomar notas.