quarta-feira, 16 de setembro
Ao vivo
Estádio de futebol com palco, apresentador em silhueta, troféu da Copa do Mundo e pilha de dinheiro no palco.
← Voltar para notícias Futebol

UEFA deve agir: FIFA pode perder apoio se não tomar medidas concretas

Enquanto a Copa do Mundo de 2026 se aproximava do fim, um dirigente de peso do futebol europeu resumiu a estratégia de Gianni Infantino para enterrar o escândalo envolvendo Folarin Balogun: anunciar mais dinheiro para todos. A frase, ouvida por Nick Ames no The Guardian, expõe o modus operandi da FIFA sob o comando do suíço-italiano. Mas a Associação de Futebol da Inglaterra (FA) já engrossou o coro de críticas ao plano de Infantino de vender fatias da Copa do Mundo para investidores privados, e a UEFA, liderada por Aleksander Čeferin, se vê pressionada a sair do discurso e partir para a ação concreta.

A novela não é nova. Há anos a entidade máxima do futebol europeu ensaia um enfrentamento mais duro com a FIFA, mas as palavras têm se mostrado insuficientes. Enquanto Infantino joga com o calendário e com a promessa de receitas bilionárias, a UEFA precisa mostrar que não é apenas um bloco de reclamações. A venda de direitos comerciais do Mundial para fundos de investimento — algo que a Concacaf também criticou abertamente — pode ser o ponto de ruptura que obrigue a entidade europeia a sair da zona de conforto.

O que está em jogo não é apenas a governança do futebol, mas o controle sobre o principal ativo do esporte: a Copa do Mundo. Se a UEFA não agir agora, corre o risco de ver a FIFA transformar o torneio em um produto financeiro descolado das federações nacionais, repetindo o roteiro que já gerou atritos com a Superliga Europeia.

O plano de Infantino que acendeu o alerta na Europa

O cerne da discórdia é a proposta da FIFA de vender participações acionárias da Copa do Mundo para investidores privados, algo que, na prática, transferiria o controle sobre decisões estratégicas do torneio para mãos alheias ao futebol. A FA, segundo o The Guardian, foi uma das primeiras a se manifestar contra o movimento, seguida pela Concacaf. Para a UEFA, o problema é duplo: além de perder influência sobre o calendário e a distribuição de receitas, os clubes europeus — que cedem seus jogadores para as datas FIFA — veriam seus interesses ainda mais fragilizados.

O histórico recente mostra que a UEFA já tentou endurecer o tom. Em 2024, Čeferin ameaçou boicotar a Copa do Mundo de 2034 caso a Arábia Saudita fosse confirmada como sede sem critérios claros de direitos humanos. Mas a ameaça não se concretizou. Agora, com a venda de ativos da Copa na mesa, a palavra precisa virar ação. Uma medida concreta seria condicionar a participação de seleções europeias em torneios da FIFA à revisão do modelo de governança, algo que teria impacto imediato nas receitas da entidade máxima.

Dados do próprio relatório financeiro da FIFA indicam que a Copa do Mundo gera cerca de 70% da receita total da entidade. Sem as seleções europeias — que respondem por 12 das 16 vagas nas quartas de final em 2026 — o torneio perde valor de mercado. É aí que a UEFA tem poder de fogo, mas precisa usá-lo de forma coordenada e pública.

O que muda para o futebol brasileiro com esse racha

Para o Brasil, a briga entre UEFA e FIFA não é apenas um assunto de salão europeu. A Seleção Brasileira, maior vencedora de Copas do Mundo, depende diretamente da estabilidade do torneio para manter seu calendário e sua relevância financeira. Se a UEFA conseguir impor freios à mercantilização desenfreada da Copa, clubes brasileiros como Flamengo, Palmeiras e Corinthians podem se beneficiar de um modelo mais equilibrado de distribuição de receitas e de datas para competições nacionais.

Além disso, a CBF observa de perto o movimento. A entidade brasileira já demonstrou insatisfação com a concentração de poder na FIFA, especialmente após a polêmica envolvendo a arbitragem e o VAR na Copa de 2026. Um eventual boicote europeu forçaria a FIFA a rever suas práticas, o que poderia abrir espaço para federações como a brasileira terem mais voz nas decisões sobre o futuro do futebol mundial.

Na prática, o que está em disputa é o modelo de negócio do esporte. Enquanto Infantino aposta em fundos de investimento e parcerias com empresas de tecnologia para inflar o valor da marca Copa do Mundo, a UEFA defende um modelo mais tradicional, com receitas distribuídas entre as federações nacionais. O Brasil, como potência histórica, tem tudo a ganhar se o equilíbrio de forças for restaurado.

A corrida contra o relógio da governança no futebol

Os próximos meses serão decisivos. A UEFA tem até o Congresso da FIFA, marcado para o primeiro semestre de 2027, para articular uma posição unificada entre suas 55 federações. Se conseguir aprovar uma moção de desconfiança ou condicionar a participação em torneios futuros, Infantino será forçado a recuar. Caso contrário, o risco é de uma fragmentação ainda maior do calendário, com a possibilidade de a UEFA criar uma competição alternativa — algo que já foi ventilado nos bastidores, mas nunca levado adiante.

A pressão também vem de dentro da Europa. Clubes como Real Madrid, Barcelona e Bayern de Munique já demonstraram apoio a uma postura mais firme da UEFA, especialmente após o fracasso da Superliga. Eles enxergam na venda de ativos da Copa uma ameaça direta ao poder de negociação dos clubes nas negociações de direitos de transmissão e patrocínios.

O futebol brasileiro, mais uma vez, será espectador privilegiado — e potencial beneficiário — desse embate. Se a UEFA conseguir impor limites à FIFA, o modelo de governança global pode se tornar mais democrático. Se perder a chance, o esporte corre o risco de virar refém de investidores que enxergam a Copa do Mundo apenas como um ativo financeiro. A bola está com Čeferin. Resta saber se ele vai chutar ou apenas driblar.

Rolar para cima